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Ditadores na tela do Cinesesc

O Cinesesc (r.augusta, 2075) inaugura, a partir do próximo domingo, dia 23/05, a Sessão Conhecer, com o propósito de apresentar ao público geral, “não-cinéfilo”,  importantes obras e autores do cinema mundial contemporâneo. E para começar, nada melhor que o cineasta Aleksandr Sokurov, um dos principais nomes do cinema independente russo da atualidade. No programa, foram selecionados três longas que compõem a tetralogia sobre os ditadores do século XX.

Neste primeiro domingo, será exibido Moloch (idem, 1999), que retrata a relação entre Adolph Hitler e sua amante Eva Braun e o encontro de ambos nos Alpes da Baviera, durante a primavera de 1942. Apesar do título (Moloch representa, em várias culturas antigas, uma divindade malévola sempre associada a sacrifícios humanos) ser uma referência direta ao ditador, o foco do filme é, sem dúvida, Eva Braun e seu papel ao lado de Hitler, como única pessoa capaz de, ao mesmo tempo, compreender e desafiá-lo, numa clara demonstração de amor e devoção.

No dia 30/05, será exibido Taurus (Telets, 2001), um retrato delicado dos últimos meses de vida de Lênin. Sua fragilidade física, em decorrência da doença degenerativa, bem como a fragilidade emocional e política, em virtude de seu afastamento compulsório dos assuntos do Partido Comunista, são evidenciados. Bela é a cena onde Lenin (impecavelmente interpretado por Leonid Mozgovoy) relembra momentos de sua vida política ao lado de sua inseparável companheira, Krupskaia, durante um bucólico passeio de domingo. A lenta degradação de Lenin é acompanhada de perto pelo espectador, que pode provar um pouco da agonia e do abandono daquele que foi um dos mais importantes líderes políticos do século passado.

Dia 06/06, é a vez do imperador japonês Hirohito ser retratado em O Sol (Sointse, 2005). O filme mostra o momento em que os americanos desembarcam no Japão, após o imperador instruir o exército japonês a retirar-se do conflito. Apesar da ordem do imperador salvar muitas vidas, os americanos decidem levar Hirohito a um tribunal de guerra. É o encontro entre o general McArthur, comandante das tropas norte-americanas no Pacífico Sul e Hirohito, o ponto central do filme. Embora derrotado, Hirohito insiste em sustentar o teatro em torno da sua imagem, que o torna inatingível.

As sessões acontecem sempre aos domingos, 11hs e são gratuitas (ingressos devem ser retirados com uma hora de antecedência).

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32ª Mostra – Crítica “Rock-Monologue” (Rússia)

Critica: Rock – Monologue.

Rock Monologue é um documentário do diretor Vladimir Kozlov, sobre o músico Yuri Morozov, figura de destaque no rock underground russo entre as décadas de 1970 e 1980.

Com um quê de peigas, o documentário traça um panorama não apenas da carreira de Morozov, mas também da ditadura empreendida na ex-URSS , com sua censura e perseguições. E foi graças àquela politica empregada naquele pais que Morozov tornou-se célebre. Quando havia apenas uma gravadora em todo pais, à serviço do governo,  Morozov gravou suas músicas, clandestinamente, na calada da madrugada, tendo como suporte as velhas fitas magnéticas.

Com músicas de protesto, desafiando várias instituições do governo, o roqueiro foi diversas vezes presos , mas nenhuma destas experiências foram eficazes a tentativa de calá-lo.

O filme, embora conte uma história interessante, de uma personalidade praticamente desconhecida aqui, esbarra na pieguice e no kitsch a todo instante. Os depoimentos de músicos, amigos e até da esposa de Morozov vão tomando  a forma dos quadros de programas dominicais.

O bacana do filme fica a cargo das imagens politicas da época, como Gorbatchev cantando “A Internacional”, os desfiles de porta mísseis em plena Praça Vermelha e as estátuas de Lênin, que povoam o imaginário ocidental até hoje.

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Uma palavra para “Rock-Monologue”: brega.

Avaliação Le Champô: regular

 

                                Yuri Morozov, tema do documentário “Rock-Monologue”

32ª Mostra – Crítica: Tulpan (Suíça, Rússia, Cazaquistão, Polônia)

O incrível filme de Sergei Dvortsevoy narra a história do jovem Asa que, ao ser dispensado da Marinha retorna aos estepes do Cazaquistão em busca da realização de seu sonho. Asa quer tornar-se pastor  de ovelhas. Para tanto ele precisa se casar, condição essencial para que ele ganhe seu primeiro rebanho.

No caso de Asa, esta condição rem nome: Tulpan, moça geniosa em que o rapaz deposita todas as suas esperanças.

A partir deste fato o filme se deserola numa boa mistura de humor e drama, mostrando com a mesma leveza a dura vida no deserto e as animadas investidas de Asa na conquista do coração de sua amada e do seu sonhado rebanho.

Se ele vai ou não atingir seu objetivo, obviamente não direi, mas digo que não foi à toa que Tulpan foi o premiado na seleção “Um Certo Olhar” na última edição do Festival de Cannes.

E cante com eles: “By the rivers of

 Babylon…”!!!

Uma palavra para “Tulpan”: surpreendente.

Avaliação Le hampo: ótimo!

                                       O cazaque Asa, protagonista de Tulpan

Crítica “Anna, Sete Anos no Front”, de Masha Novikova

Quais são os desdobramentos da intolerância?? Até onde alcança o braço da guerra? Por quanto tempo perdura as conseqüências destes atos?

A jornalista russa Anna Politkovskaya, se estivesse viva, talvez não hesitaria em responder: -“A vida inteira”.

É essa Anna Politkovskaya que a cineasta Masha Novikova, diretora de “Anna, Sete Anos no Front (Anna, Seven Years on Frontline, Holanda/Rússia, 2008) quer que conheçamos. Não apenas uma jornalista sagaz, instintiva e competente. Novikova quer que conheçamos a profissional comprometida com seu trabalho e com aqueles que a cerca; cidadã, que coloca sua voz e seu braço à favor da coletividade; humanista, que chora as dores daqueles a quem defende.

O documentário “Anna, Sete Anos no Front”, conta a história da jornalista russa, assassinada a tiros na porta de sua casa, em Moscou, em 2006. Seu nome esteve ligado ao conflito Rússia x Tchechênia, por conta das denúncias de maus-tratos e abuso de poder cometidos pelo governo russo no território inimigo.

Ao longo do filme, vemos imagens de arquivo, onde a jornalista comenta as investidas russas contra a pobre população tchechena. Relatos de torturas (que, nas palavras de Politkovskaya, são realizadas sob métodos medievais) são endossadas por uma população velha e sofrida – muitos jovens foram mortos nos conflitos.

Os episódios da tomada do Teatro Dubrovka, em 2002 e dos ataques na escola de Beslan, em 2004, estão presentes no documentário.

Um filme que nos mostra que toda guerra tem dois ou mais lados, por mais que alguns veículos de imprensa ou que a própria configuração geo-econômica tente nos provar o contrário. Nestes casos, não há espaço para maniqueísmos – somente para o desespero, o medo e a dor da perda.

Anna Politkovskaya, jornalista russa assassinada em 2006
Anna Politkovskaya, jornalista russa assassinada em 2006