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Tarantino e Resnais apresentam seus filmes no 8º dia do Festival de Cannes

Ontem foi a vez de Quentin Tarantino e Alain Resnais apresentarem seus filmes, ambos concorrentes à Palma de Ouro do Festival de Cannes.

Tarantino mostrou o seu (já bastante) comentado “Inglourious Basterds” (EUA), que conta a história de um grupo militar formado por soldados judeus norte-americanos que decidem empreender vingança contra oficiais do Terceiro Reich, ao mesmo tempo que uma sobrevivente do Holocausto tenta castigar os assassinos de sua família. O líder do grupo militar é o tenente Aldo Reiner, interpretado pelo ator Brad Pitt, maior destaque desta produção. Pitt, que aparece de cabelos escuros, adotou um sotaque rural e  caprichou no “ar impedoso” do ten.Reiner, que exige o escalpo dos inimigos nazistas. Dá uma olhada no trailer:

No mais, “Inglourious” é o típico filme de Tarantino. Muita violência, cenas sanguinárias (sobretudo as de escalpamento!), trilha sonora perfeita (outra marca de Tarantino),etc. O diferencial deste filme é justamente a temática –  é um filme de guerra e mais ainda, sobre a Segunda Guerra Mundial. A história se situa entre 1941 e 1944. 

inglorious_bastards

Depois da première dedicada aos jornalistas, Quentin Tarantino afirmou ser este filme o seu “Monte Everest”. De fato, trata-se de uma guinada na carreira européia do diretor, como bem salientou a Ilustrada de hoje. Fazem parte do longa atores de diversas nacionalidades, cada um falando sua língua e apenas um, o ator Christoph Waltz no papel do carrasco nazista Hans Landa, dominando todas elas.

Segundo Tarantino, “não é despropositado considerar (este filme) um sonho de vingança judaica”, porém, o elemento central de “Inglourious Basterds” é outro: “meus personagens mudam o curso da guerra”, declarou. Aqui, a  atriz Mélanie Laurent, Quentin Tarantino, Diane Kruger  e Brad Pitt, durante coletiva de Imprensa em Cannes. A imagem é do site do Festival de Cannes:

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Outro destaque do 8º dia do Festival de Cannes foi a première de “Les Herbes Folles“, do aclamado diretor Alain Resnais. Como já comentado neste Le Champo, no aniversário de 50 anos de seu clássico “Hiroshima, Meu Amor”, concorrente à Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1959, Resnais apresentou ontem o que poderia ser considerado por alguns uma “comédia romântica”, apesar de sabermos que os filmes de Resnais não podem ser rotulados. Na história, um homem (André Dussollier) apaixona-se imediatamente por uma mulher (Sabine Azéma, musa do diretor) no momento em que devolve sua bolsa, que havia sido roubada e que fora encontrada por ele. O homem é casado, mas passa a telefonar e a escrever para a mulher como se ambos tivessem uma relação estabelecida. Por outro lado, os sentimentos da mulher oscilam entre a aproximação e o afastamento do ser desejado.

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Coisas do cinema francês e da sua capacidade de transportar para a tela histórias cotidianas e até mesmo recorrentes, e transformá-las em algo maior. Resnais já havia feito isso em “Hiroshima”, fez muitas outras vezes em muitos de seus filmes e o já lendário “Medos Privados em Lugares Públicos”, há mais de 2 anos em cartaz na cidade de São Paulo comprova a contemporaneidade de seus filmes. 

Aqui, este respeitável senhor de 86 anos, mente incrível, e o elenco de seu novo filme após exibição no Festival de Cannes:

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Drama sobre derrota de Mussolini arranca aplausos da plateia de Cannes

O diretor italiano Marco Bellochio concorre à Palma de Ouro do Festival de Cannes com o filme “Vincere” (Itália/França), que trata da história da amante de Mussolini, Ida Dalser e do filho de ambos, que ele renegou. O título “Vincere”, portanto, faz referência à vitória de Dalser sobre Mussolini que, apesar de todos os esforços do Duce para calar sua voz e apagar sua presença internando-a num manicômio, ela sobreviveu à História.

vincere

A idéia de filmar a história de Ida Dalser , segundo Bellochio, vem do fato de que “ela apoiou Mussolini desde o início de sua carreira, inclusive financeiramente, e se tornou uma heroína trágica”. Em 1914, Ida teve um filho com Mussolini, mas a existência de uma amante e de um filho fora do casamento colocava em risco a imagem do político, que começava a se projetar. O diretor optou por utilizar no longa inúmeras imagens de arquivo, porém, mesclou-as à trama “de modo que formassem um corpo único com o filme, e não inseridas como um documentário, com caráter informativo ou pedagógico”, salientou Bellochio durante a coletiva de imprensa, realizada ontem.

O papel de Ida Dasler ficou a cargo da belíssima atriz Giovanna Mezzogiorno (que atuou também em “Palermo Shooting” de Wim Wenders e que foi exibido na última Mostra Internacional de Cinema de São Paulo), cuja interpretação mereceu destaque da crítica. Sua intenção, segundo informou aos jornalistas presentes em Cannes era a de destacar  “a complexidade dessa personagem, uma quase feminista que sacrificou sua vida por um homem”. As informações são da Ilustrada (Folha de S.Paulo) de hoje, o do UOL. Mussolini é interpretado pelo ator Filippo Timi.

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O filme arrancou aplausos da plateia durante a exibição de ontem, dedicada à imprensa no Festival de Cannes. No entanto, e como muitos diretores, Bellochio preferiu se acautelar quanto ao veredicto do júri: “Aconteça o que acontecer, tenho muito orgulho de ter feito esse filme”, disse aos jornalistas. Abaixo, os atores e diretor durante coletiva de imprensa:

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Cannes recebe bem “Los Abrazos Rotos”, de Almodóvar

Los Abrazos Rotos“, novo filme do diretor espanhol Pedro Almodóvar foi recebido com aplausos pela plateia presente na exibição ocorrida ontem, dentro da Competição Oficial pela Palma de Ouro do Festival de Cannes. Apesar disso e segundo informações da AFP, o filme não causou o mesmo furor que “Volver” (2006) ou  ainda”Tudo sobre minha mãe” (1999), presentes nas edições anteriores do Festival.

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Comparações a parte, “Los Abrazos” é sem dúvida um dos grandes filmes presentes na Competição Oficial. Misturando passado e presente, melodrama e comédia delicada, além da estrutura diferenciada, com a existência de pequenos filmes dentro do filme e sem em nenhum momento descuidar da fluidez da narrativa, o longa-metragem conta a história do cineasta de Mateo Blanco (Lluís Homar) que durante as filmagens de “Chicas y Maletas” (o “filme” dentro do filme e uma nova versão de “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos”, também de Almodóvar!) apaixona-se pela atriz Lena (Penélope Cruz). No entanto, Lena é casada com Ernesto Martel (José Luís Gomez), magnata e produtor do filme. As consequências desse triângulo amoroso são trágicas: além de perder o amor de Lena, Blanco também perde a visão num acidente de carro. Imerso em tantos desastres, o cineasta decide enterrar o nome de Mateo Blanco e adotar em definitivo a identidade de Harry Caine, pseudônimo que já usava para assinar roteiros. Com essa atitude Blanco/Caine não só enterra sua carreira cinematográfica como também sua história de vida e suas lembranças da tragédia. Mas um dia todo o passado virá a tona e Banco/Caine terá que confrontar o passado.

Após a exibição do longa, em encontro com os jornalistas, Almodóvar comparou a atitude de Blanco com a forma que a Espanha lida com o seu passado, marcado pela ditadura franquista. O diretor criticou a Lei da Memória Histórica de seu país alegando que, apesar de entender que “às vezes é preciso esquecer para poder avançar”, chega um momento em que “é necessário afrontar a memória” para que as feridas do passado possam enfim, fechar.

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Quando questionado sobre a presença da “refilmagem” de “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos” (1987) neste filme, Almodóvar afirmou que não se trata de uma auto-homenagem, mas que optou por este “porque não precisava pagar direitos autorais”.  O cineasta afirmou ainda que seus próximos filmes poderão destacar mais personagens masculinas que femininas, que é sua marca principal. Mas, ao contrário do que acontece com as mulheres de seus filmes, sempre fortes, os homens em que pensam são sempre horríveis!

Abaixo, Pedro Almodóvar posa para os fotógrafos com o elenco de “Los Abrazos Rotos”. As imagens (esta e a anterior) são do site do Festival:

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32ª Mostra – Crítica: “Che”

Se o resultado de toda histeria coletiva fosse filmes incríveis, “Che” seria imbatível. Com ingressos impossíveis de serem comprados pela internet e com filas que começaram às 9h30 da manhã do dia 30, este foi o filme mais aguardado de toda a Mostra Internacional de Cinema.

O caos perdurou até o início da sessão – na sala 1 do Unibanco Arteplex, por exemplo houve atraso de 1 hora para o início da sessão, além de uma projeção lamentável (problemas de foco, de som, queda de energia etc…). Até mesmo a prometida presença de Benício del Toro decepcionou: ao lado de Rodrigo Santoro e da produtora Laura Bickford, a encenação toda não durou 5 minutos.

Aqui imagens (horríveis, reconhecemos) que tentamos fazer do encontro:

                                                         Rodrigo Santoro e Benício Del Toro

                                                         Aqui, Del Toro, no destaque…

Quanto ao filme, bem… se no primeiro filme você saí da sala gritando “Hasta la victoria, siempre!”, no segundo você fica olhando para o relógio o tempo todo se perguntado: “pôxa, você não vai morrer não, Che?”.

E, ao contrário do que se pode justificar, ou seja, que são momentos da vida do guerrilheiro bastante diferentes, onde no primeiro há a esperança da Revolução Castrista e no segundo a derrocada e morte de Che, acredito que Stevem Soderbergh perde mesmo foi a mão ao dirigir o segundo filme. Este é chato, não têm o mesmo vigor que o primeiro e faz com que todo o encanto do primeiro escoa pelo ralo…

O filme decresce…

Apesar disso, merecem elogios a atuação de Benício del Toro (acho que ele ganha o Oscar!), com a caracterização perfeita do personagem, capaz de mostrar humanidade em Che quando luta e quando sofre de asma e com poucos exageros (como a excessiva imagem dos charutos) e ainda a atuação de Demián Bichir no papel de Fidel Castro – capaz de confundir o espectador nas cenas em P&B.

Avaliação Le Champo para “Che- 1”: Excelente!

Avaliação Le Champo para “Che – 2”: Regular.

Eis aqui o trailler do primeiro filme, “Che – o Argentino”:

 

32ª Mostra – Crítica: “Mais Tarde Você Entenderá”

Há aqueles que detestam o cinema de Amos Gitai e com certeza eu não faço parte desse grupo. Ainda mais depois de ver seu último longa, “Mais Tarde Você Entenderá”, cuja temática foge do tradicional conflito Israel x Palestina para mostrar o conflito entre catolicismo x judaísmo.

Com a belíssima atuação de Jeanne Moreau (de “Jules et Jim”) no papel de Rivka, filha de judeus russos perseguidos durante a Segunda Guerra, o filme relata a busca de Victor, filho de Rivka, na construção do passado de sua família, incentivado pelo julgamento de Klaus Barbie, iniciado em 1987 e que acompanha pela televisão. Nessa busca, Victor e sua família decidem viajar até  vilarejo que serviu de esconderijo a seus avós.

Somos agentes da História e essa lição é dada por Gitai com a mesma sensibilidade que permeia seus outros trabalhos (“Free Zone”, “Kadosh”).

Avaliação Le Champo: Excelente!

                   Victor e Rivka conversam em cena de “Mais Tarde Você Compreenderá”, de Amos Gitai

32ª Mostra – Crítica: “Waltz with Bashir”

O que passa pela cabeça dos organizadores da Mostra Internacional de Cinema de programar para o mesmo – e diga-se de passagem, absurdo! – horário as duas únicas sessões do filme que despertou o interesse de pessoas mundo afora? 

Atraídos pela curiosidade que filmes neste formato traz, embora já não seja novidade o chamado AnimaDoc – e o sucesso de “Persépolis” (2006) está aí para comprovar isso, uma fila de desesperados cinéfilos se formava na bilheteria do Espaço Unibanco Arteplex, no Shopping Frei Caneca, antes das 11 horas da manhã. O filme seria exibido às 23h30.

23h00 e as filas para entrar nas duas salas onde “Waltz with Bashir” seria exibido já estava formada. Algumas “personalidades” do cinema estavam presentes, entre elas a cineasta Daniela Thomas (de “Linha de Passe”) e Hector Babenco, que zanzava de um lado para o outro.

Começa o filme. A ameaça de briga entre dois mau-educados na sala 1 não compromete a exibição. O que se têm à frente é uma animação de boa qualidade, como se fosse imagens reais, somadas a um roteiro impressionante. Como dito antes, trata-se de uma autobiografia onde Ari Folman conta sua experiência no exército israelense na ocasião da Guerra do Líbano (1980), onde além de combatente, fora testemunha ocular do massacre de palestinos empreendido pelo exército libanês. O Le Champo já havia comentado sobre o “Waltz…” em Cannes, lembra?

Se não lembra, não tem problema, eu separei aqui o trailer, somente para esquentar as discussões sobre sua possível indicação ao Oscar por filme estrangeiro. 

Ah, sim, a Avaliação Le Champo: Excelente!

32ª Mostra – Crítica: Representantes Polacos – Varsóvia Sombria e Katyn

Um sábado dedicado a nova e velha Polônia.

Foram exibidas ontem as sessões de “Varsóvia Sombria”, de Christopher Doyle e de “Katyn”, de Andrzej Wajda (lê-se Vaida). 

“Varsóvia Sombria” mostra uma Polônia contemporânea, um país do leste europeu que não prosperou como outros do continente. Varsóvia, sua capital, é cinzenta durante o dia e a noite, bares e clubs servem de ponto de encontro a endinheirados e jovens prostitutas de todas as origens. Num desses clubs está Ojka, personagem central da trama de Doyle. Ela é testumunha do assassinato de um importante político e, mais do que isso, ela é a isca do seu assassinato. Envolvida numa trama cheia de idas e vindas, Ojka, ou Mathilda (seu verdadeiro nome) encontra-se presa entre seu passado e futuro, enquanto membros de uma estranha organização deixam revelar-se pouco a pouco.

Se o roteiro confunde e cansa, a bem trabalhada fotografia chama atenção, remetendo aos trabalhos anteriores de Doyle, como “2046” ou “Anjos Caídos”, de Wong Kar-Wai (Doyle é o diretor de fotografia de ambos). E mesmo não sendo polonês, o diretor australiano consegue, como último respiro, dar mostras do humor tipicamente polaco.

Dica Le Champo: não saia no meio dos créditos!

De Varsóvia para Cracóvia. Da atualidade para a década de 1940. Aqui a Polônia é palco central da Segunda Guerra Mundial, tendo seu território dividido entre os alemães e os soviéticos e milhares de poloneses mortos por ambos. No meio do confronto a floresta de Katyn é testemunha do massacre de oficiais poloneses à mando de Josef Stalin, fato que marcaria para sempre a vida das 4 famílias retratadas na obra de Andrzej Wajda.

Obra-prima, diga-se de passagem. O sentimento nacionalista que existe por trás da intenção de mostrar o episódio histórico de Katyn não torna o filme vulgar ou menos belo. Muito pelo contrário. Cenas de puro lirismo mesclam-se com imagens da época, levando o filme para muito além de uma simples narrativa. Destaque para as atuações de Maja Ostaszewska, que interpreta Anna, esposa de um dos oficiais e de Andrzej Chyra, na pele do Tenente Jerzy. Veja o trailer aqui.

Gênios nascem grandes. Wajda é um deles.

Dica Le Champo: leve lenços…

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Avaliação Le Champo – “Varsóvia Sombria”: regular.

Avaliação La Champo – “Katyn”: Excelente!

 

                                                             Cena de “Varsóvia Sombria”…

 … e o pôster de Katyn.