Posts Tagged 'crítica'

33ª Mostra – Crítica: “Os Famosos e Os Duendes da Morte”

Uma pacata cidade do interior. Um garoto de 16 anos e que, como qualquer adolescente, tem um forte sentimento de não-pertencimento ao local. Uma garota que partiu. Um misterioso que chega. Tudo muito folk embalado por “Mr.Tambourine Man”, de Bob Dylan.

Colocando as coisas dessa maneira parece fácil resumir “Os Famosos e os Duendes da Morte”, do jovem, porém talentoso cineasta, Esmir Filho. O longa franco-brasileiro, primeiro da carreira de Filho, foi selecionado para o Festival de Locarno (Suíça) deste ano e traz todos esses elementos para falar de algo mais profundo, embora comum à maioria das pessoas: inadequação e desejo de fuga.

os-famosos-e-os-duendes-da-morte

 

A história se passa numa cidadezinha alemã no Sul do Brasil, daquelas onde todo mundo conhece (e sabe da vida de) todo mundo e que não faz questão nenhuma de se relacionar com o que está além de suas fronteiras. Nessa esfera claustrofóbica, um garoto “que não tem nome” encontra na internet a redenção: a rede é sua ponte para o mundo exterior, muito mais interessante e cheio de possibilidades. É lá que ele conhece a “menina sem pernas”, com quem partilha sentimentos e a vontade de escapar. A cada um uma característica limitante – falta de nome ou pernas – e também um caminho.

Tudo no filme de Esmir Filho é onírico, abstrato, beira o confuso. Nada é direto, explícito, palpável, embora tudo seja muito intenso. Neste clima marcado por névoa e fumaça, real e virtual se confundem, bem como sentimentos e relações. Há mistério também, encarnado por uma misteriosa figura recém-chegada à cidade e que desperta a ira de uns e o interesse de outros.

osfamososeosduendesdamorte

Por toda essa conjunção de elementos, falar de “Os Famosos e os Duendes da Morte” não é tão fácil quanto parece. Melhor é senti-lo. E ouvi-lo. Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me,
I’m not sleepy and there is no place I’m going to”…

33ª Mostra – Crítica: “Alga Doce”

O novo filme do diretor polonês Andrzej Wajda pode assustar aqueles que só viram ou conhecem o grandioso “Katyn”, exibido na 32ª Mostra. Não que “Alga Doce” (Tatarak) seja ruim, muito pelo contrário, esta é mais uma obra-prima do cineasta que, aos 83 anos, mostra fôlego e criatividade de sobra. Mas “Alga Doce” está longe de ser uma narrativa linear, dessas que o espectador se coloca à frente da tela e tem toda a história pronta aos seus sentidos.

tatarak

Em seu último trabalho, Wajda mescla duas histórias intensas e em ambas brilha a atriz Krystyna Janda. Uma das histórias é um monólogo protagonizado por Janda,  em que a atriz relata os últimos momentos antes da morte do marido, o diretor de fotografia Edward Klosinski, a quem o filme é dedicado. Na outra história, ela interpreta Marta, mulher de meia-idade sufocada pela dor da perda dos dois filhos na guerra e vítima de uma doença terminal.

O filme é, portanto, um exercício cinematográfico onde beleza e dor, vida e morte, caminham juntas, são indissociáveis. É a própria significação do título: alga doce, planta comum em rios, tem em suas folhas, segundo explica Wajda, o perfume de bétulas, mas sua raiz tem o aroma de escamas de peixe podre, “cheiro de morte” . E é de morte, pontuada por momentos belos, salvadores, de que fala o filme.

A beleza em questão é Bogus, um jovem condutor de balsa por quem Marta se apaixona. Do alto do seus vinte anos, o rapaz não vê grandes expectativas de vida, nem mesmo ao lado de sua namorada, a bela Halinka. Mas para Marta, o vigor, a luz e espontaneidade de Bogus é a própria vida pulsando, brilhando em meio às suas catástrofes pessoais.

tatarak_wajda

Tanto o monólogo quanto a ficção são marcados pelo tom intimista, extremamente delicado e mostram o sofrimento compartilhado entre atriz e personagem. A fotografia, assinada por Pawel Edelman, evidenciam essas características e abusa da combinação luz e sombras e destacam belas paisagens de uma pequena cidade polonesa às margens de um rio, onde quase todas as cenas se passam.

Uma obra única.

33ª Mostra – Crítica: “À Procura de Eric”

Dois homens, um único nome. Esse é o ponto de partida escolhido pelo cineasta Ken Loach para contar a emocionante história de Eric Bishop, personagem central de “À Procura de Eric”, filme indicado à Palma de Ouro no último Festival de Cannes e que abriu a 33ª Mostra Internacional de Cinema de SP, na última quinta-feira.

Bishop é carteiro e mora num subúrbio londrino, na companhia de seus turbulentos enteados. Sua vida se resume ao entediante trabalho, aos poucos amigos e ao time do coração, o Manchester United, a quem devota alguns gritos de alegria. Solitário e afundado em uma profunda crise pessoal, Eric Bishop cumpre quase que diariamente um ritual simples: observar o pôster do jogador Eric Cantona na parede do seu quarto. Quase que como uma confissão, o carteiro desabafa à figura suas dificuldades e pede ao ídolo conselhos.

looking-for-eric

Até que um dia o próprio Cantona surge diante de seu fã como uma verdadeira aparição. E, através de conversas com seu novo amigo imaginário, que mais lembram sessões de terapia, a vida do carteiro começa a mudar. Aos poucos ele vai reconstruindo sua auto-estima e começa a criar coragem para resolver pendências do passado, como o mal-explicado término de seu primeiro casamento com Lily, o amor da sua vida e mãe de sua filha.

2lnbe4g

A participação do próprio jogador no filme e a forma como é estabelecida a relação entre os dois Erics, tão diferentes, dão todo o brilho à humorada produção. As citações em francês de Cantona, ídolo do Manchester United, sua postura confiante, retratada pelo erguer da gola da camisa, tudo isso contrasta com o carteiro inseguro, cujo sentimento de culpa faz perder a direção da própria vida e a moral junto aos enteados, que envolvidos em negócios escusos, só poderão contar com o padrasto.

Um filme que mostra, de forma cômica, como o amor e o fanatismo pelo futebol mudar vidas.

33ª Mostra – Crítica: “A Fita Branca”

Depois dos consagrados “A Professora de Piano” (2001) e “Caché” (2005), Michael Haneke retorna às telas com mais uma obra intrigante. Trata-se de “A Fita Branca”  (Das Weisse Band), vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes desse ano.

DasWeisseBand2.JPG

O filme conta a história de um vilarejo protestante situado no norte da Alemanha, às vésperas da Primeira Guerra Mundial. No lugar figuram personagens típicos, como o poderoso barão e sua abastada família, os camponeses, o pastor, o médico, a parteira, o professor e inúmeras crianças em seus trajes de época. Como também é típico de lugares como este, os trabalhadores são explorados, as mulheres são submissas à figura masculina, as crianças recebem educação rígida e aos jovens não restam outras expectativas além da do casamento.

O cotidiano dessa cidadezinha aparentemente tranquila e pacata é alterado com a ocorrência de estranhos acidentes. O primeiro deles fere gravemente o médico local, derrubado de seu cavalo por um arame amarrado propositalmente a duas árvores no jardim de sua casa. Tanto a comunidade quanto a polícia desconhecem o responsável pelo atentado e, em clima de pavor crescente, adultos e crianças assistem a uma série de violentas tragédias.

Enquanto isso o espectador é levado a observar as relações familiares dos membros do vilarejo que, somadas ao medo dos eventos externos, tornam-se ainda mais ásperas. É aí que conhecemos a origem do título do filme, através da personagem do pastor. Homem extremamente rígido, o sacerdote espera de seus filhos, além de comportamento exemplar, uma conduta tão inocente quanto inalcançável. Como símbolo dessa pureza idealizada, ele ordena à mulher que amarre aos cabelos e às roupas dos filhos adolescentes uma fita branca, como lembrete de suas expectativas. E, na dificuldade de responder aos anseios do pai, as crianças são severamente castigadas.

weisseband

Tão representativa quanto a violência física é a violência moral, destacada pelos diálogos fortes, travados entre várias personagens e com passagens no mínimo, constrangedoras. E ao conhecer um pouco mais sobre a história daquelas pessoas, os estranhos acontecimentos que vitimam sobretudo crianças inocentes tomam ares de ritual punitivo. Mas punição empregada por quem?

Haneke não pretende oferecer respostas, mas sim ferramentas que levem o espectador a refletir sobre o ser humano e seu apelo à violência. O “guia” dessa complicada tarefa é o professor: é ele quem nos narra os fatos partindo de suas observações e dos boatos que corriam à época dos episódios. Analisando e esmiuçando cada crime e as intrincadas relações, esta personagem ao mesmo tempo se mantém alheia daquela esfera brutal, desejando coisas mais simples, como casar-se com sua amada e viver uma vida bucólica e tranquila.

Além do roteiro muito bem construído, “A Fita Branca” destaca-se pela belíssima fotografia em preto-e-branco, cujos contrastes dão ainda mais sobriedade ao enredo. A atuação do elenco infantil merece igual atenção, pois são elas o ponto central da trama, por onde perpassa a crueldade, que poderá deixar (ou não) sementes a serem germinadas no futuro.

pic_228319

Nesta obra, Haneke comprova a tese de que nem sempre é preciso recorrer a métodos complicados ou perversos para inquietar o público. Seu filme é singelo, mas através dessa singeleza ele conta uma história extremamente forte, chocante e comovente, como poucos conseguem fazer.

32ª Mostra – Repescagem: Ingmar Bergman!

A repescagem da 32ª Mostra Internacional de Cinema começa em grande estilo, já que as sessões que se seguem pela próxima semana (até dia 6/11) não prometem ser as mais animadoras.

De qualquer maneira, quem deixou para depois os filmes de Bergman não se arrependeu. Na sexta, dia 31/10 e primeiro dia da repescagem  foram exibidos na Cinemateca Brasileira “Crise” (1946), “Prisão” (1949), “Sede de Paixões” (1949), “Música na Noite” (1948) e “A Hora do Lobo” (1968).

Uma boa oportunidade para atestar a eterna genialidade deste mestre maior do cinema, embora alguns defendam o contrário para estes primeiros filmes da carreira do diretor sueco. 

Recheado de dramas psicológicos, estes primeiros e raros filmes de Bergman trazem consigo a marca principal do diretor, que é a observação do íntimo do ser humano, onde as pessoas agem de acordo com seus interesses e cujo desfecho dificilmente é o desejado. 

Mais filmes de Bergman foram exibidos ontem e hoje na Cinemateca, e quem viu, com certeza tardará a esquecer.

Avaliação Le Champo para “Crise”: Excelente!

Avaliação Le Champo para “Prisão”: Excelente!

Avaliação Le Champo para “Sede de Paixões”: Excelente!

                                    A jovem Nelly em “Crise”, de 1946…

 

                        … a confusa Birgitta-Carolina, de “Prisão”, (1949)…

                             … e as heroínas de “Sede de Paixões”, (1949)

32ª Mostra – Crítica: “Mais Tarde Você Entenderá”

Há aqueles que detestam o cinema de Amos Gitai e com certeza eu não faço parte desse grupo. Ainda mais depois de ver seu último longa, “Mais Tarde Você Entenderá”, cuja temática foge do tradicional conflito Israel x Palestina para mostrar o conflito entre catolicismo x judaísmo.

Com a belíssima atuação de Jeanne Moreau (de “Jules et Jim”) no papel de Rivka, filha de judeus russos perseguidos durante a Segunda Guerra, o filme relata a busca de Victor, filho de Rivka, na construção do passado de sua família, incentivado pelo julgamento de Klaus Barbie, iniciado em 1987 e que acompanha pela televisão. Nessa busca, Victor e sua família decidem viajar até  vilarejo que serviu de esconderijo a seus avós.

Somos agentes da História e essa lição é dada por Gitai com a mesma sensibilidade que permeia seus outros trabalhos (“Free Zone”, “Kadosh”).

Avaliação Le Champo: Excelente!

                   Victor e Rivka conversam em cena de “Mais Tarde Você Compreenderá”, de Amos Gitai

32ª Mostra – Resumo de 29.10 – “Serbis”, “Melodias de Primavera” e “Lições Particulares”

Penúltimo dia de Mostra e alguns filmes de gosto bastante duvidoso.

Começaremos pelo filipino “Serbis”, de Brillante Mendonza. O filme retrata a vida de uma família numerosa, que cuida e vive num velho cinema pornô. Em meio à pobreza, à falta de perspectivas, às frustrações pessoais e à prostituição crescente e descoordenada dentro da sala de cinema, os membros dessa família são obrigados a lidar com o que há de pior nos outros.

Se a intenção é mostrar a degradação, o feio e o sujo, o filme vai além e deixa que essa sensação de asco pareça descuido do diretor. A intenção de chocar o espectador torna as cenas cansativas e pouco enfadonhas. Melhor seria se fosse um documentário. Avaliação Le Champo: Ruim

O contraponto de “Serbis” é o alemão “Melodias de Primavera”, de Martin Walz. Uma comédia-romântica-musical bastante açucarada, mas que não chega a enjoar. O mote da história é o encontro de duas pessoas problemáticas, Anna, a professora primária com ataques de nervos e Thilo, o frustrado ator que, para se sustentar, tenta vender vinhos por telefone. Um encontro casual e uma paixão arrebatadora e problemas cotidianos, tudo marcado com estrofes musicais. 

Sem pretensões e mais um filme tipo “sessão da tarde”, que não desagrada, porém, está longe de marcar presença num festival. Avaliação Le Champo: Regular!

Por fim o quase polêmico “Lições Particulares”, de Joachim Lafosse. Houve quem o adorou e também os que detestaram esse que chamo de “drama grego sob viés francês”. Jonas, personagem central da trama, é um adolescente cheio de planos mas que pouco se esforça na realização destes. Repetente, filho de pais separados e frente às primeiras experiências sexuais com a garota de gosta, Jonas só encontra apoio no grupo de amigos mais velhos, composto pelo casal Nathalie e Didier e de Pierre. Este último, solidarizado com os sonhos do garoto de seguir seus estudos, oferece seus préstimos de tutor. No entanto, a relação entre ambos estrapola os limites acadêmicos, tornando-se cada vez mais íntima e invasiva. 

Roteiro interessante e boa atuação de Yannick Renier, no papel de Pierre (e também presente no já comentado “Nascidos em 68”), garantem nesse Le Champo a avaliação de Bom!

                                                        Cena do repugnante “Serbis”…

                                                   … do açucarado “Melodias de Primavera”…

… e trailler do intrigante “Lições Particulares”…