Arquivo de outubro \28\UTC 2009

33ª Mostra – Crítica: “Os Famosos e Os Duendes da Morte”

Uma pacata cidade do interior. Um garoto de 16 anos e que, como qualquer adolescente, tem um forte sentimento de não-pertencimento ao local. Uma garota que partiu. Um misterioso que chega. Tudo muito folk embalado por “Mr.Tambourine Man”, de Bob Dylan.

Colocando as coisas dessa maneira parece fácil resumir “Os Famosos e os Duendes da Morte”, do jovem, porém talentoso cineasta, Esmir Filho. O longa franco-brasileiro, primeiro da carreira de Filho, foi selecionado para o Festival de Locarno (Suíça) deste ano e traz todos esses elementos para falar de algo mais profundo, embora comum à maioria das pessoas: inadequação e desejo de fuga.

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A história se passa numa cidadezinha alemã no Sul do Brasil, daquelas onde todo mundo conhece (e sabe da vida de) todo mundo e que não faz questão nenhuma de se relacionar com o que está além de suas fronteiras. Nessa esfera claustrofóbica, um garoto “que não tem nome” encontra na internet a redenção: a rede é sua ponte para o mundo exterior, muito mais interessante e cheio de possibilidades. É lá que ele conhece a “menina sem pernas”, com quem partilha sentimentos e a vontade de escapar. A cada um uma característica limitante – falta de nome ou pernas – e também um caminho.

Tudo no filme de Esmir Filho é onírico, abstrato, beira o confuso. Nada é direto, explícito, palpável, embora tudo seja muito intenso. Neste clima marcado por névoa e fumaça, real e virtual se confundem, bem como sentimentos e relações. Há mistério também, encarnado por uma misteriosa figura recém-chegada à cidade e que desperta a ira de uns e o interesse de outros.

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Por toda essa conjunção de elementos, falar de “Os Famosos e os Duendes da Morte” não é tão fácil quanto parece. Melhor é senti-lo. E ouvi-lo. Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me,
I’m not sleepy and there is no place I’m going to”…

33ª Mostra – Crítica: “Alga Doce”

O novo filme do diretor polonês Andrzej Wajda pode assustar aqueles que só viram ou conhecem o grandioso “Katyn”, exibido na 32ª Mostra. Não que “Alga Doce” (Tatarak) seja ruim, muito pelo contrário, esta é mais uma obra-prima do cineasta que, aos 83 anos, mostra fôlego e criatividade de sobra. Mas “Alga Doce” está longe de ser uma narrativa linear, dessas que o espectador se coloca à frente da tela e tem toda a história pronta aos seus sentidos.

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Em seu último trabalho, Wajda mescla duas histórias intensas e em ambas brilha a atriz Krystyna Janda. Uma das histórias é um monólogo protagonizado por Janda,  em que a atriz relata os últimos momentos antes da morte do marido, o diretor de fotografia Edward Klosinski, a quem o filme é dedicado. Na outra história, ela interpreta Marta, mulher de meia-idade sufocada pela dor da perda dos dois filhos na guerra e vítima de uma doença terminal.

O filme é, portanto, um exercício cinematográfico onde beleza e dor, vida e morte, caminham juntas, são indissociáveis. É a própria significação do título: alga doce, planta comum em rios, tem em suas folhas, segundo explica Wajda, o perfume de bétulas, mas sua raiz tem o aroma de escamas de peixe podre, “cheiro de morte” . E é de morte, pontuada por momentos belos, salvadores, de que fala o filme.

A beleza em questão é Bogus, um jovem condutor de balsa por quem Marta se apaixona. Do alto do seus vinte anos, o rapaz não vê grandes expectativas de vida, nem mesmo ao lado de sua namorada, a bela Halinka. Mas para Marta, o vigor, a luz e espontaneidade de Bogus é a própria vida pulsando, brilhando em meio às suas catástrofes pessoais.

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Tanto o monólogo quanto a ficção são marcados pelo tom intimista, extremamente delicado e mostram o sofrimento compartilhado entre atriz e personagem. A fotografia, assinada por Pawel Edelman, evidenciam essas características e abusa da combinação luz e sombras e destacam belas paisagens de uma pequena cidade polonesa às margens de um rio, onde quase todas as cenas se passam.

Uma obra única.

33ª Mostra – Crítica: “À Procura de Eric”

Dois homens, um único nome. Esse é o ponto de partida escolhido pelo cineasta Ken Loach para contar a emocionante história de Eric Bishop, personagem central de “À Procura de Eric”, filme indicado à Palma de Ouro no último Festival de Cannes e que abriu a 33ª Mostra Internacional de Cinema de SP, na última quinta-feira.

Bishop é carteiro e mora num subúrbio londrino, na companhia de seus turbulentos enteados. Sua vida se resume ao entediante trabalho, aos poucos amigos e ao time do coração, o Manchester United, a quem devota alguns gritos de alegria. Solitário e afundado em uma profunda crise pessoal, Eric Bishop cumpre quase que diariamente um ritual simples: observar o pôster do jogador Eric Cantona na parede do seu quarto. Quase que como uma confissão, o carteiro desabafa à figura suas dificuldades e pede ao ídolo conselhos.

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Até que um dia o próprio Cantona surge diante de seu fã como uma verdadeira aparição. E, através de conversas com seu novo amigo imaginário, que mais lembram sessões de terapia, a vida do carteiro começa a mudar. Aos poucos ele vai reconstruindo sua auto-estima e começa a criar coragem para resolver pendências do passado, como o mal-explicado término de seu primeiro casamento com Lily, o amor da sua vida e mãe de sua filha.

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A participação do próprio jogador no filme e a forma como é estabelecida a relação entre os dois Erics, tão diferentes, dão todo o brilho à humorada produção. As citações em francês de Cantona, ídolo do Manchester United, sua postura confiante, retratada pelo erguer da gola da camisa, tudo isso contrasta com o carteiro inseguro, cujo sentimento de culpa faz perder a direção da própria vida e a moral junto aos enteados, que envolvidos em negócios escusos, só poderão contar com o padrasto.

Um filme que mostra, de forma cômica, como o amor e o fanatismo pelo futebol mudar vidas.

33ª Mostra – Crítica: “Sussuros ao Vento”

Eis aqui um bom exemplar iraquiano, digno de nota!

Sussuros ao Vento” (Sirta La Gal Ba/ Whisper With the Wind), do cineasta Shahram Alidi, conta a história do velho Mam Baldar, um mensageiro que, de posse de seu rádio gravador e ao volante de sua caminhonete, percorre as montanhas do Curdistão iraquiano, levando e trazendo mensagens para os habitantes da região. Em suas viagens encontra apenas morte, destruição e desespero. São tempos marcados pelo regime de Sadam Hussein e as constantes investidas contra os curdos impede, muitas vezes, Mam Baldar de encontrar os destinatários das mensagens que porta.

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Por outro lado e em meio a tanto sofrimento, Mam Baldar depara-se com tipos exóticos, personagens únicas daquela região eternamente em conflito, como por exemplo um rapaz que traz em seu rosto as inúmeras cicatrizes das batalhas enfrentadas. Ou ainda as mulheres que, feitas prisioneiras, gastam seus últimos anos de vida a empilhar pedras no deserto. A noite, o vento desmancha as pilhas construídas, obrigando-as a retomar o trabalho na manhã seguinte.

Entre suas muitas encomendas, uma é especial. Um comandante guerrilheiro pede ao “Tio Alado” que grave o primeiro choro de seu filho. Mas, ao chegar ao vilarejo indicado pelo homem, Baldar descobre que todas as crianças e mulheres da região foram expulsos para um vale distante. A viagem de Mam Baldar será longa e no caminho ele terá duas certezas: a primeira, que o fim dos conflitos está longe do fim; a segunda, que apesar de tanto sofrimento e dor, a resistência curda se mantêm firme, através da guerrilha e rádio Peshawar (clandestina) e da esperança que renasce em meio às dificuldades.

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Em seu filme, Alidi recorre às fórmulas típicas de filmes do Oriente-médio, como o frenético apelo à fotografia, onde natureza e poesia se misturam quase que instantaneamente, além de sequências quase que intermináveis e silenciosas. Somados  à atuação de habitantes locais, não profissionais (não-atores) e a existência de tipos exóticos (como o homem preso por consertar rádios), clichês tão comuns e um pouco enjoativos, a metodologia usada pelo cineasta não chega a apagar o brilho da obra. A beleza e a destruição alternam-se, dando um certo movimento e muita graça ao filme.

Vale a pena ver “Sussuros ao Vento”, já que este foi um dos filmes participantes da última Semana da Critica em Cannes.

33ª Mostra – Crítica: “A Fita Branca”

Depois dos consagrados “A Professora de Piano” (2001) e “Caché” (2005), Michael Haneke retorna às telas com mais uma obra intrigante. Trata-se de “A Fita Branca”  (Das Weisse Band), vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes desse ano.

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O filme conta a história de um vilarejo protestante situado no norte da Alemanha, às vésperas da Primeira Guerra Mundial. No lugar figuram personagens típicos, como o poderoso barão e sua abastada família, os camponeses, o pastor, o médico, a parteira, o professor e inúmeras crianças em seus trajes de época. Como também é típico de lugares como este, os trabalhadores são explorados, as mulheres são submissas à figura masculina, as crianças recebem educação rígida e aos jovens não restam outras expectativas além da do casamento.

O cotidiano dessa cidadezinha aparentemente tranquila e pacata é alterado com a ocorrência de estranhos acidentes. O primeiro deles fere gravemente o médico local, derrubado de seu cavalo por um arame amarrado propositalmente a duas árvores no jardim de sua casa. Tanto a comunidade quanto a polícia desconhecem o responsável pelo atentado e, em clima de pavor crescente, adultos e crianças assistem a uma série de violentas tragédias.

Enquanto isso o espectador é levado a observar as relações familiares dos membros do vilarejo que, somadas ao medo dos eventos externos, tornam-se ainda mais ásperas. É aí que conhecemos a origem do título do filme, através da personagem do pastor. Homem extremamente rígido, o sacerdote espera de seus filhos, além de comportamento exemplar, uma conduta tão inocente quanto inalcançável. Como símbolo dessa pureza idealizada, ele ordena à mulher que amarre aos cabelos e às roupas dos filhos adolescentes uma fita branca, como lembrete de suas expectativas. E, na dificuldade de responder aos anseios do pai, as crianças são severamente castigadas.

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Tão representativa quanto a violência física é a violência moral, destacada pelos diálogos fortes, travados entre várias personagens e com passagens no mínimo, constrangedoras. E ao conhecer um pouco mais sobre a história daquelas pessoas, os estranhos acontecimentos que vitimam sobretudo crianças inocentes tomam ares de ritual punitivo. Mas punição empregada por quem?

Haneke não pretende oferecer respostas, mas sim ferramentas que levem o espectador a refletir sobre o ser humano e seu apelo à violência. O “guia” dessa complicada tarefa é o professor: é ele quem nos narra os fatos partindo de suas observações e dos boatos que corriam à época dos episódios. Analisando e esmiuçando cada crime e as intrincadas relações, esta personagem ao mesmo tempo se mantém alheia daquela esfera brutal, desejando coisas mais simples, como casar-se com sua amada e viver uma vida bucólica e tranquila.

Além do roteiro muito bem construído, “A Fita Branca” destaca-se pela belíssima fotografia em preto-e-branco, cujos contrastes dão ainda mais sobriedade ao enredo. A atuação do elenco infantil merece igual atenção, pois são elas o ponto central da trama, por onde perpassa a crueldade, que poderá deixar (ou não) sementes a serem germinadas no futuro.

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Nesta obra, Haneke comprova a tese de que nem sempre é preciso recorrer a métodos complicados ou perversos para inquietar o público. Seu filme é singelo, mas através dessa singeleza ele conta uma história extremamente forte, chocante e comovente, como poucos conseguem fazer.

Contagem Regressiva: 10, 9, 8… é a 33ª Mostra de Cinema SP!

Cinéfilos do mundo, uni-vos!

Começa amanhã a 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o maior evento de cinema do Brasil e da América Latina. Este ano, cerca de 400 títulos foram selecionados entre mais de 700 inscritos e serão exibidos em 17 salas de cinema espalhadas pela cidade, até o dia 5/11. E tem de tudo: dos indicados aos grandes festivais internacionais como Cannes, Veneza, Sundance, Berlim até avant-premièrs nacionais e internacionais. Longas,médias, curtas, animações, documentários, retrospectivas, homenagens, debates e encontros, enfim, a mostra paulistana é, sem dúvida alguma, o momento da cinefilia brasileira.

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A largada da Mostra será dada hoje a noite no Auditório Ibirapuera, com a exibição de “À Procura de Eric”, de Ken Loach, aplaudido na última edição do Festival de Cannes. A sessão inaugural será exclusiva para convidados.

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Além dos filmes, a Mostra receberá dezenas de convidados, alguns estrangeiros, como é o caso da atriz francesa Fanny Ardant, homenageada deste ano e que vem para divulgar o filme “Cinzas e Sangue”, sua estreia na direção. Quem também vem é o diretor israelense Amos Gitai, que nesta edição da mostra exibe os inéditos “Carmel” e “A Guerra dos Filhos da Luz Contra os Filhos das Trevas“. E para os profissionais e estudantes de cinema interessados em aprender técnicas de iluminação, o diretor de fotografia Christian Berger, de “A Fita Branca” (Palma de Ouro em Cannes) ministrará duas oficinas exclusivas para este público, uma no dia 2/11 (profissionais) e outra dia 4/11 (estudantes), às 10hs, na Cinemateca e na FAAP.

Carmel_Amos_GitaiCena de “Carmel”, Amos Gitai”…

cendres-et-sang… e cartaz de “Cinzas e Sangue”, de Fanny Ardant

Novidade é o Prêmio Itamaraty Cinema Brasileiro, concedido pela primeira vez na Mostra Internacional de Cinema e que oferecerá R$ 90 mil em prêmios, entre três categorias (longa de ficção, documentário e curta-metragem). Outra novidade, esta imperdível, é a exibição de 24 longas na internet, disponível aos primeiros 300 acessos logo após a exibição do mesmo título na sala de cinema. A boa nova é do Cineclick!

Se interessou pela Mostra?  Ainda há pacotes de ingressos e permanentes à venda (pacotes de 20 ingressos esgotaram!), de R$ 76,50 a R$ 390,00, na Central da Mostra, dentro do Conjunto Nacional (Av. Paulista, 2073), ou entradas individuais ao preço de R$14,00 (seg. a qui) e R$18,00 (sex., sáb. e dom.). Consulte a programação com data, local e horário das sessões no Site da Mostra.

Ah! E como já é tradicional, este Le Champo fará a cobertura do evento, trazendo resenhas, dicas, informações e tudo o que rolar no evento mais aguardado do calendário cinéfilo.

Nos vemos por aí!