Arquivo de março \30\UTC 2008

Resenha “A Música de Meu Pai”, de Igor Heitzmann

Neste sábado assisti ao filme “A Música de Meu Pai” (Nach der Musik, Alemanha, 2006),  de Igor Heitzmann, dentro da mostra “O Estado das Coisas”, do 13º É Tudo Verdade.

O documentário conta a história do aclamado maestro Otmar Suitner, regente da Filarmônica de Berlim e suas peripécias em manter (secretamente) suas duas famílias – uma em cada lado do Muro de Berlim. Em plena Guerra Fria, Suitner atravessava a vigiadíssima fronteira para visitar a amante e o filho, o pequeno Igor, diretor do documentário em questão.

O filme é belíssimo, de um lirismo impressionante e, ao mesmo tempo, num ritmo tão moroso que faz cochilar os desavisados da platéia.

O que vemos na tela é um homem já velho, espirituoso, amante da música, profundo conhecedor de seu antigo ofício, apaixonado por suas duas mulheres e pai afetuoso, embora pouco presente na infância do filho.

Passado e presente mesclam-se através de cartas antigas, fotos de família, imagens dos momentos marcantes da carreira do maestro e depoimentos de suas duas mulheres.

Destaques para a cena em que Suitner almoça tranqüilamente ao lado da esposa e da amante, enquanto revira o passado e para a cena onde o pai-maestro ensina ao filho o bom uso da batuta.

São através de momentos singulares como estes que Heitzmann contempla o objetivo máximo de sua obra – reconhecer o pai através da música.

Toda a distância do passado e a ausência de um pai ovacionado por platéias do mundo inteiro parecem diminuir, a medida em que a idade avança para os dois.

O diretor Igor Heitzmann e seu pai, o maestro Otmar Suitner, em cena de 'A Música de Meu Pai'
O diretor Igor Heitzmann e seu pai, o maestro Otmar Suitner, em cena de A Música de Meu Pai

Resenha de “Operação Cineasta” – 13º É Tudo Verdade

Na última sexta-feira resolvi ir dar uma espiada no longa “Operação Cineasta” (Operation Filmaker, EUA, 2007), de Nina Davenport.

Não que estivesse assim tão empolgada, como acontece sempre que vejo uma produção norte-americana a respeito dos seus (muitos) desafetos. E de fato não foi algo que tenha me surpreendido, apesar de se tratar de um filme bem feito.

O documentário conta o envolvimento de um jovem estudante de cinema, iraquiano, com a produção do filme “Uma Vida Iluminada” (aquele em que Elijah Wood é um jovem judeu americano e aparece com óculos bobocas!), a convite do diretor Liev Schreiber.

Tudo começa quando Schreiber vê uma matéria produzida pela MTV em que aparece Muthama Mohmed. Na cena, Mohmed mostra os destroços de sua escola e, tendo a catastrófica Bagdad como pano de fundo, fala dos seus sonhos como cineasta e dos lábios de Angelina Jolie.

Abre-se caminho para uma experiência que podemos chamar, no mínimo, de fracassada. Schreiber (como todo “bom” norte-americano), emocionado com a história, manda buscar Mohmed de Bagdad a Praga, onde são rodadas as cenas do tal filme.

O rapaz, por outro lado, emocionado com a oportunidade única e com a beleza dos campos de girassóis da República Tcheca, dá mostras de um temperamento, ora voluntarioso e mimado, ora carismático e consciente dos problemas de seu povo.

Dá-se início a uma série de conflitos entre todos os envolvidos no projeto, incluindo-se a própria diretora do documentário. Davenport foi chamada para registrar a mencionada parceria, mas ao fim das filmagens e do trabalho de Muthama no filme de Liev, acaba sendo engolida pelo grandioso sentimento de culpa que permeia toda a sua obra.

E o documentário segue, mostrando opiniões de várias pessoas sobre o “comportamento ingrato” de Muthama e as inúmeras tentativas, “cheias de amor e paciência” de todos aqueles que cercam o iraquiano.

Imagens dos amigos e da família de Muthama são costuradas ao enredo, sempre mostrando a destruição e os horrores testemunhados por aqueles que vivem num país (obviamente pobre) em guerra. Há inclusive o relato de um amigo de Muthama que, proibido de sair de casa por conta dos bombardeios, clama seu ódio às religiões, principalmente ao Islã e ao país.

Enfim, como disse, todo o filme é uma culpa só e uma cobrança só. Primeiro, o rapaz iraquiano culpa-se da oportunidade mal-administrada por ele e cobra daqueles que o cercam novas chances e inesgotável ajuda; Depois, culpam-se, diretor e produtor americanos das mazelas causadas pelo governo de seu país ao pobre rapaz. E cobram de Mohmed uma postura que não lhe cabe (enquanto jovem de classe média acostumado a ver satisfeitas suas necessidades básicas). Compartilha dessa mesma culpa Davenport, que o acompanha, lhe dá colo, dinheiro e se submete a seu humor intempestivo.

É como se um inseto da boa-vontade e da benevolência mordesse todo aquele que convivesse com a triste história do “menino-iraquiano-vítima-da-guerra” e os obrigasse a algo.

Muita responsabilidade e pouco resultado prático na tela e um sentimentozinho de clichê para o espectador.

A cineasta norte-americana Nina Davenport e o iraquiano Muthama Mohmed
A cineasta norte-americana Nina Davenport e o iraquiano Muthama Mohmed

Sem o véu, não!

A animação “Persépolis”, de Marjane Satrapi e Vicent Paronnaud, foi vetada no Líbano. O motivo não foi especificado pelas autoridades daquele país, mas é possível deduzir que a forma como foi abordados os temas históricos, como a Revolução Islâmica e as relações do Irã com o Ocidente, tenham sido os responsáveis pela proibição.

Vale lembrar que o próprio governo do Irã já havia criticado o filme e que, mesmo considerado “islamófobo” e “anti-iraniano” pelo presidente Mahmoud Ahmadinejad, uma versão censurada da obra fora exibida nos cinemas iranianos.

“Persépolis” foi premiado do Festival de Cannes de 2007 e indicado ao Oscar de Melhor Animação, perdendo para a produção norte-americana “Ratatouille”, do estúdio Walt Disney/Pixar (o que aliás, foi uma pena!).

 

Cena de “Persépolis”, de Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud
A pequena Marjane, tomando uma geral das Irmãs da Revolução

Morre o roteirista Rafael Azcona

Faleceu na última segunda-feira,aos 81 anos, o roteirista espanhol Rafael Azcona, vítima de câncer no pulmão.

Azcona, um dos mais importantes roteiristas do cinema espanhol, tornou-se mundialmente conhecido após “Sedução” (cujo roteiro lhe pertence) receber o Oscar por Melhor Filme Estrangeiro, em 1994.

Além deste, são célebres os roteiros de “Ai, Carmela!, dirigido por Carlos Saura e “A Língua das Mariposas”, de José Luis Cuerda.


Rafael Azcona, roteirista espanhol

Mulheres mostram a verdade

O 13º Festival Internacional de Documentários – É Tudo Verdade, que começa hoje em São Paulo traz a agradável surpresa de exibir o maior número de produções feitas por mulheres de todas as suas edições.

Dos 15 concorrentes ao prêmio de Melhor Documentário de Longa e Média-metragem, 8 são produções femininas.

É o caso de Kim Longinotto, que apresenta o seu “Me Abrace Forte e Me Deixe Ir”, relato sobre a Mulberry Bush School, que atende 40 crianças com distúrbios de comportamento. É a sexta participação da inglesa no festival e seu documentário recebeu o prêmio de Melhor Documentário Britânico de 2007.

A mexicana Diana Cardozo (“Sete Intantes”) mostra história de sete mulheres que se tornaram guerilheiras no Uruguai, nos anos 60 e 70, como integrantes das fileiras dos Tupamaros (também conhecidos como Movimento de Libertação Nacional).

As transformações do universo feminino na Itália das décadas de 1960 e 1970 são retratadas em “Também Queremos as Rosas”, de Alina Marazzi.

Masha Novikova dirige “Anna, Sete Anos no Front”, sobre a jornalista russa Anna Politkovskaya, assassinada a tiros em Moscou em 2006 e principal crítica do governo russo nos conflitos com a Chechênia.

Há ainda “Phyllis e Harold”, da norte-americana Cindy Kleine, “Operação Cineasta”, de Nina Davenport, o premiado “Ao Lado”, de Stéphane Mercurio e “O Cosmonauta Polyakov”, da alemã Dana Ranga.


Cena de Me Abrace Forte e Me Deixe Ir

It’s All True!

Começa amanhã em São Paulo o 13º Festival Internacional de Documentários- É Tudo Verdade. Até o dia 06 de abril serão exibidos, entre longas e curtas, cerca de 137 títulos do gênero, em 8 salas de cinema da cidade.

Dentro da Competição Brasileira, concorrem 7 longas e 11 curtas. Destaque para os longas “Simonal – Ninguém Sabe o Duro Que Dei”, de Claudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal e “O Aborto dos Outros”, de Carla Gallo, ambos de 2007.

Já na Competição Internacional, onde concorrem 15 longas e 9 curtas, destaque para “Stranded”, que abre o evento e revive um dramático acidente nos Andes.

Além das Competições, o evento também se divide em outras categorias, como por exemplo, a Mostra Especial (com a temática “Vidas Brasileiras”), Foco Latino-americano e O Estado das Coisas, além das homenagens a Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni, mortos em 2007.

O Festival acontece também nas cidades do Rio de Janeiro, Bauru, Brasília, Recife e Caxias/RS, em datas diferentes.

Você pode conferir a programação completa do É Tudo Verdade em:

http://www.itsalltrue.com.br/2008/programacao/

Ian Curtis, vocalista do Joy Division
O documentário “Joy Division”, de Grant Gee, uma das atrações do Festival.

Pré-estréia de “O Longo Amanhecer- Cinebiografia de Celso Furtado”

Acontece quinta, dia 27, às 20h a pré-estréia do filme “O Longo Amanhecer”, documentário sobre o economista Celso Furtado. Promovida pela Folha de S.Paulo em parceria com o Cine Bombril, a sessão, que é gratuita, será seguida de um bate-papo do diretor José Mariani com a platéia.

José Mariani já havia dirigido “Cientistas Brasileiros (Brasil,2002, 54”) documentário sobre a trajetória dos físicos César Lattes e José Leite Lopes.

Celso Furtado, nascido em 26 de julho de 1920, na Paraíba e falecido em 20 de novembro de 2004, no Rio de Janeiro, foi um dos mais importantes economistas do país, responsável por obras célebres, das quais destacam-se “A economia brasileira” (1954, Rio de Janeiro: A Noite.) e “Formação econômica do Brasil“(1959, Rio de Janeiro: Fundo de Cultura).

A estréia de “O Longo Amanhecer- Cinebiografia de Celso Furtado” está prevista para 04 de abril.

Celso Furtado, economista
Celso Furtado, economista