Textos categorizados 'É Tudo Verdade'

“Pan-Cinema Permanente” e “Cosmonauta Polyakov” surpreendem e levam Troféu É Tudo Verdade

Aconteceu na noite do último sábado, em São Paulo, a premiação do 13º Festival Internacional de Documentários- É Tudo Verdade.

O evento, que foi aberto ao público, contou com a presença de diretores, produtores, além de representantes dos patrocinadores do festival.

A premiação foi marcada pelo tom direto e um pouco confuso, sobretudo no que dizia respeito às traduções dos discursos enviados pelos cineastas estrangeiros premiados.

As surpresas da noite (ao menos para alguns) foram as premiações dos longas – nacional e internacional.

Na Competição Brasileira, “Pan-Cinema Permanente” levou o Troféu É Tudo Verdade de melhor longa-metragem, além do maior prêmio em dinheiro – um valor de R$100.000,00.

O filme, que fala da trajetória do poeta Waly Salomão, demorou 15 anos para ser concluido, segundo as palavras do diretor.

Particularmente, eu esperava que “O Aborto dos Outros”, de Carla Gallo, pudesse vencer a competição, mas, no entanto, ganhou somente Menção Honrosa pela sua tocante obra.

Outra Menção Honrosa foi dada a “Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei”, dos diretores Cláudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal, filme que, como o nome sugere, relata a meteórica carreira de Wilson Simonal durante as décadas de 1960 e 1970 e o ostracismo decorrente de seu suposto envolvimento com a Polícia Política (DOPS) durante a Ditadura Militar.

Já na competição de curtas, o bem feito “Remo Usai – Um Músico Para o Cinema”, de Bernardo Uzeda leva o troféu de melhor curta-metragem brasileiro e um prêmio de R$ 6.000,00. O curta conta a história do músico Remo Usai, autor de mais de 150 trilhas para curtas e longas brasileiros.

Esta premiação contrariou mais uma vez o meu palpite e “Dossiê Rê Bordosa”, de César Cabral e meu favorito ao prêmio, recebe Menção Honrosa por sua obra que mistura animação com linguagem de documentário. Ótimo curta!

Dentro da Competição Internacional, a cineasta alemã Dana Ranga leva o prêmio de melhor documentário longa-metragem internacional com o seu “Cosmonauta Polyakov” e o libanês “Apenas Um Odor”, de Maher Abi Samra, se destaca como melhor documentário curta-metragem internacional.

Após a premiação os filmes vencedores do festival foram exibidos em sessão especial para o público presente.

Crítica “Anna, Sete Anos no Front”, de Masha Novikova

Quais são os desdobramentos da intolerância?? Até onde alcança o braço da guerra? Por quanto tempo perdura as conseqüências destes atos?

A jornalista russa Anna Politkovskaya, se estivesse viva, talvez não hesitaria em responder: -”A vida inteira”.

É essa Anna Politkovskaya que a cineasta Masha Novikova, diretora de “Anna, Sete Anos no Front (Anna, Seven Years on Frontline, Holanda/Rússia, 2008) quer que conheçamos. Não apenas uma jornalista sagaz, instintiva e competente. Novikova quer que conheçamos a profissional comprometida com seu trabalho e com aqueles que a cerca; cidadã, que coloca sua voz e seu braço à favor da coletividade; humanista, que chora as dores daqueles a quem defende.

O documentário “Anna, Sete Anos no Front”, conta a história da jornalista russa, assassinada a tiros na porta de sua casa, em Moscou, em 2006. Seu nome esteve ligado ao conflito Rússia x Tchechênia, por conta das denúncias de maus-tratos e abuso de poder cometidos pelo governo russo no território inimigo.

Ao longo do filme, vemos imagens de arquivo, onde a jornalista comenta as investidas russas contra a pobre população tchechena. Relatos de torturas (que, nas palavras de Politkovskaya, são realizadas sob métodos medievais) são endossadas por uma população velha e sofrida – muitos jovens foram mortos nos conflitos.

Os episódios da tomada do Teatro Dubrovka, em 2002 e dos ataques na escola de Beslan, em 2004, estão presentes no documentário.

Um filme que nos mostra que toda guerra tem dois ou mais lados, por mais que alguns veículos de imprensa ou que a própria configuração geo-econômica tente nos provar o contrário. Nestes casos, não há espaço para maniqueísmos – somente para o desespero, o medo e a dor da perda.

Anna Politkovskaya, jornalista russa assassinada em 2006
Anna Politkovskaya, jornalista russa assassinada em 2006

Debate com Alina Marazzi, diretora de “Também Queremos as Rosas”

Após a exibição do filme “Também Queremos as Rosas” (Vogliamo Anche le Rose, Italia, Suiça,2007), a diretora Alina Marazzi conversou com a platéia.

Entre outras coisas, Marazzi disse que começou a trabalhar neste documentário há três anos e que, desde então, nunca poderia imaginar que temas pertinentes às décadas de 1960 e 1970 pudessem voltar com tanta força nos dias de hoje.

Segundo a cineasta, questões como as diferenças de gênero são praticamente desconhecidas pelas gerações mais novas da Itália.

Pensando nisso e com o intuito de percorrer histórias de uma geração e de uma época que ela não participou, a diretora foi buscar materiais autênticos, ou seja, fotografias, materiais de arquivo, filmes caseiros e até diários onde constam os depoimentos, pensamentos e indagações que são expostos em sua obra.

Alina Marazzi também falou sobre o alcance que seu filme teve na Itália. Para ela foi “incrível” o fato do filme ter sido exibido no circuito cinematográfico italiano, pois, tratando-se de documentário, isso geralmente não acontece. E que, graças ao apoio das redes de televisão estrangeiras, no caso da Suiça, da Finlândia e também das italianas Rai Cinema e grupo Fox, seu filme teve um bom resultado desde sua estréia, no dia 08 de março deste ano.

A cineasta Alina Marazzi
A cineasta Alina Marazzi

Crítica “Também Queremos as Rosas”, de Alina Marazzi .

Partindo de uma criativa colagem de noticiários, filmes caseiros, relatos de diários e materiais de arquivo, o longa “Também Queremos as Rosas” (Vogliamo Anche le Rose, Italia, Suiça,2007), de Alina Marazzi retrata as mudanças do comportamento feminino na Itália, nas décadas de 1960 e 1970.

Como se sugerisse uma linha do tempo, o documentário inicia com mulheres questionando a Constituição Italiana da época,  que entre outros pontos, falava da autoridade do marido sobre a mulher, colocava o adultério feminino (e somente feminino) como crime e dizia que o estupro constitui crime contra a moral e não contra a pessoa.

Abriu-se espaço para que mulheres começasssem a discutir e contestar seu papel limitadíssimo na sociedade. Elas negam idéias como casamento, família, filhos, tornar-se “donas-de-casa”. Agora elas querem se emancipar, ganhar as ruas, estudar, trabalhar.

Cenas da presença de mulheres em montadoras de veículos e em outros setores da economia são exibidas, sempre mostrando a dicotomia entre aquelas que querem se libertar das amarras do lar e aquelas outras que vêem no trabalho extra-lar uma sobrecarga de tarefas e responsabilidades.

O desejo de libertação extrapola os limites da vida profissional e encontra no campo afetivo-sexual seu maior expoente. Quem não se lembra da cena de mulheres dançando nuas no Festival de Woodstock?? Pois o filme vai além desta e mostra como as italianas  se impuseram frente à possibilidade do sexo antes do casamento, ao aborto e à contracepção. O embate ideológico com a Igreja, o enfrentamento social que este assunto clama, tudo isso é abordado.

Na da década de 1970, a questão do feminismo é uma questão social. Mulheres organizam-se em grupos, realizam passeatas em favor dos temas femininos, sofrem represálias, ou seja, cenas que povoam nossa cabeça quando falamos dos famosos Anos 70, mas que, segundo a diretora Alina Marazzi, são quase desconhecidas do público mais jovem de seu país.

Nesse ponto, novamente surgem as contradições da mulher que, a essa altura, não sabe mais se deve insistir no antigo modelo comportamental e seguir o marido ou se deve rebelar-se e viver ao seu modo. Fica claro que na Itália, assim como na maioria dos países, o feminismo cresce mas fica longe de atingir todas as mulheres.

Mais que um documentário, o filme é documento em si, retratando a mulher de maneira colorida, divertida, leve e nem um pouco fútil.

É filme pra se ver com a mãe, a filha, as amigas, o marido, enfim, pra ver e rever com todo mundo!

Cena de 'Também Queremos as Rosas', de Alina Marazzi

Cena de Também Queremos as Rosas, de Alina Marazzi

Debate com Carla Gallo, diretora de “O Aborto dos Outros”

Após a exibição do longa “O Aborto dos Outros” (Brasil, 2007), a diretora Carla Gallo se dispôs a debater sua obra, hoje à tarde, no Cinesesc,  em São Paulo.

Aqui, breves trechos dessa conversa com o público:

Quando questionada se as pessoas que foram mostradas no documentário viram ou irão ver o filme, Carla Gallo respondeu que elas (mulheres) sabem que o filme está sendo exibido no Festival, mas que, para evitar que se sintam expostas, haverá uma sessão particular para elas.

 Gallo foi questionada também sobre os motivos que a fizeram tocar em um assunto tão polêmico, como é o aborto, num país como o Brasil. Ela responde que duas foram suas principais motivações. A primeira foi o relato de sua mãe, que engravidara dela aos 23 anos, em princípio solteira, de família católica, enfim, numa série de dificuldades. Depois de realizar o exame de ultrassom, sua mãe busca o resultado e se surpreende ao receber junto deste um cartãozinho com um telefone de uma clínica de aborto. Desde então a questão da decisão da mulher sobre a maternidade ficou muito evidente para ela.  Além disso, quando ela mesma (Gallo) decidiu ser mãe, percebeu que a maternidade está envolta por uma série de questões, que vão além das condições econômicas, passando pelas condições psicológicas e emocionais.

 A platéia também perguntou à diretora como ela chegou às mulheres, cujas histórias foram relatadas no filme. Em resposta, Gallo explicou que no início ela tinha apenas um plano em mente e, ao conversar com sua assistente, ambas decidiram que jamais iriam tentar convencer qualquer mulher a falar sobre o assunto. A idéia era simplesmente apresentar suas idéias, sem convencimento. A diretora disse ter conversado com equipes médicas em hospitais e através destas, chegaram a elas. Daí então, elas conversavam e determinavam o limite sobre o ponto onde poderiam ir. Por isso, no filme, há mulher que mostra o rosto, mulher em que rosto é mostrado parcialmente, mulher que só aparece a voz, etc… Algumas, inclusive, chegaram a pedir que fossem utilizados filtros para disfarçar a voz, recurso esse que foi negado pela diretora.

Por fim, quando questionada se há previsão sobre a entrado do filme do circuito de cinema da cidade, Carla Gallo respondeu que já foi fechada uma parceria com um distribuidor, mas que por questões contratuais, ainda não é possível falar em datas. Mas ela espera que o filme chegue a todos, através das exibições nas salas de cinema, depois em dvd, e que ele possa alavancar discussões nas faculdades, entre os grupos interessados e etc.

Crítica “O Aborto dos Outros”, de Carla Gallo

Estamos na metade do 13º É Tudo Verdade 2008. E no meio do evento, com tanta coisa legal sendo exibida, me arrisco a dizer que um filme em especial vai ficar na memória.

Estou falando de “O Aborto dos Outros” (Brasil,2007), de Carla Gallo, que compete no Festival Internacional de Documentários na categoria Melhor Documentário Brasileiro. Tive a oportunidade de conferir a segunda exibição do filme em São Paulo – a primeira aconteceu ontem à noite, no CineSesc. A sessão foi seguida de um interessante debate da diretora com a platéia.

No entanto, falaremos do filme.

O documentário percorre as histórias de mulheres que se submeteram a abortos, legais ou não. Seus dramas, conflitos e medos são expostos de maneira delicada, mas não de forma superficial. O objetivo do filme, segundo Gallo, “foi colocar, no centro do debate, o sentimento feminino, a despeito do Estado e da Igreja”. Trata-se de “um filme sobre a mulher”.

Uma dessas mulheres é a jovem Maria, de apenas 13 anos, vítima de um estupro que a engravidou. É ela quem abre o filme. Sua mãe, católica, explica que sempre foi contrária ao aborto, mas emenda dizendo que, na realidade, só quem passa pela situação sabe o que é certo ou não e que Deus, por mais que condene tal ato, saberá entender a situação.

O processo de abortagem a qual Maria se submete é longo e doloroso. Enquanto aguarda os efeitos da medicação que expulsará o feto de seu ventre, Maria faz desenhos: desenha casas, árvores frondosas e no canto, uma garotinha. Nesse momento, lembramos que estamos vendo a história de uma menina que pedira à sua mãe uma Barbie no Dia das Crianças.

Em seguida, vemos a história de outra mulher. Esta é casada e revela que sempre desejou ser mãe. No entanto, seu bebê é anencéfalo, além de possuir má formação nos rins. A decisão do casal: a interrupção da gravidez no sexto mês. O choro contido revela não apenas a tristeza e a dor de um sonho interrompido, mas também o sentimento de culpa. Seu aborto é amparado pelas leis do Estado, mas não pelas leis de Deus.

Outras histórias se sucedem. O tom é sempre o mesmo. Em nenhum caso os abortos são cometidos desprovidos de dor ou culpa. Em todos os casos porém, o que vemos são mulheres, tendo que justificar para si mesmas e para a sociedade a sua opção de não levar a diante suas gestações indesejadas. Em alguns casos, suas palavras são postas à prova.

É o que mostra o caso da mulher que engravidou, também de uma violência sexual. Após procurar o centro de apoio a mulheres, seu caso foi levado a uma espécie de comissão médica. O único homem da sala questiona, “como que para ter certeza”, se não há a menor possibilidade de falsidade no depoimento da mulher.

Seu aborto é feito. Mas em que condições…

O filme é profundo e toca de maneira peculiar aqueles favoráveis à discriminalização do aborto. E veio num momento importantíssimo da nossa sociedade, que é quando o tema volta a ser discutido dentro da esfera do poder público.

Uma pena que ainda não tenha data definida para entrar no circuito.

Cena do filme “O Aborto dos Outros”

Resenha “A Música de Meu Pai”, de Igor Heitzmann

Neste sábado assisti ao filme “A Música de Meu Pai” (Nach der Musik, Alemanha, 2006),  de Igor Heitzmann, dentro da mostra “O Estado das Coisas”, do 13º É Tudo Verdade.

O documentário conta a história do aclamado maestro Otmar Suitner, regente da Filarmônica de Berlim e suas peripécias em manter (secretamente) suas duas famílias – uma em cada lado do Muro de Berlim. Em plena Guerra Fria, Suitner atravessava a vigiadíssima fronteira para visitar a amante e o filho, o pequeno Igor, diretor do documentário em questão.

O filme é belíssimo, de um lirismo impressionante e, ao mesmo tempo, num ritmo tão moroso que faz cochilar os desavisados da platéia.

O que vemos na tela é um homem já velho, espirituoso, amante da música, profundo conhecedor de seu antigo ofício, apaixonado por suas duas mulheres e pai afetuoso, embora pouco presente na infância do filho.

Passado e presente mesclam-se através de cartas antigas, fotos de família, imagens dos momentos marcantes da carreira do maestro e depoimentos de suas duas mulheres.

Destaques para a cena em que Suitner almoça tranqüilamente ao lado da esposa e da amante, enquanto revira o passado e para a cena onde o pai-maestro ensina ao filho o bom uso da batuta.

São através de momentos singulares como estes que Heitzmann contempla o objetivo máximo de sua obra – reconhecer o pai através da música.

Toda a distância do passado e a ausência de um pai ovacionado por platéias do mundo inteiro parecem diminuir, a medida em que a idade avança para os dois.

O diretor Igor Heitzmann e seu pai, o maestro Otmar Suitner, em cena de 'A Música de Meu Pai'
O diretor Igor Heitzmann e seu pai, o maestro Otmar Suitner, em cena de A Música de Meu Pai

Resenha de “Operação Cineasta” – 13º É Tudo Verdade

Na última sexta-feira resolvi ir dar uma espiada no longa “Operação Cineasta” (Operation Filmaker, EUA, 2007), de Nina Davenport.

Não que estivesse assim tão empolgada, como acontece sempre que vejo uma produção norte-americana a respeito dos seus (muitos) desafetos. E de fato não foi algo que tenha me surpreendido, apesar de se tratar de um filme bem feito.

O documentário conta o envolvimento de um jovem estudante de cinema, iraquiano, com a produção do filme “Uma Vida Iluminada” (aquele em que Elijah Wood é um jovem judeu americano e aparece com óculos bobocas!), a convite do diretor Liev Schreiber.

Tudo começa quando Schreiber vê uma matéria produzida pela MTV em que aparece Muthama Mohmed. Na cena, Mohmed mostra os destroços de sua escola e, tendo a catastrófica Bagdad como pano de fundo, fala dos seus sonhos como cineasta e dos lábios de Angelina Jolie.

Abre-se caminho para uma experiência que podemos chamar, no mínimo, de fracassada. Schreiber (como todo “bom” norte-americano), emocionado com a história, manda buscar Mohmed de Bagdad a Praga, onde são rodadas as cenas do tal filme.

O rapaz, por outro lado, emocionado com a oportunidade única e com a beleza dos campos de girassóis da República Tcheca, dá mostras de um temperamento, ora voluntarioso e mimado, ora carismático e consciente dos problemas de seu povo.

Dá-se início a uma série de conflitos entre todos os envolvidos no projeto, incluindo-se a própria diretora do documentário. Davenport foi chamada para registrar a mencionada parceria, mas ao fim das filmagens e do trabalho de Muthama no filme de Liev, acaba sendo engolida pelo grandioso sentimento de culpa que permeia toda a sua obra.

E o documentário segue, mostrando opiniões de várias pessoas sobre o “comportamento ingrato” de Muthama e as inúmeras tentativas, “cheias de amor e paciência” de todos aqueles que cercam o iraquiano.

Imagens dos amigos e da família de Muthama são costuradas ao enredo, sempre mostrando a destruição e os horrores testemunhados por aqueles que vivem num país (obviamente pobre) em guerra. Há inclusive o relato de um amigo de Muthama que, proibido de sair de casa por conta dos bombardeios, clama seu ódio às religiões, principalmente ao Islã e ao país.

Enfim, como disse, todo o filme é uma culpa só e uma cobrança só. Primeiro, o rapaz iraquiano culpa-se da oportunidade mal-administrada por ele e cobra daqueles que o cercam novas chances e inesgotável ajuda; Depois, culpam-se, diretor e produtor americanos das mazelas causadas pelo governo de seu país ao pobre rapaz. E cobram de Mohmed uma postura que não lhe cabe (enquanto jovem de classe média acostumado a ver satisfeitas suas necessidades básicas). Compartilha dessa mesma culpa Davenport, que o acompanha, lhe dá colo, dinheiro e se submete a seu humor intempestivo.

É como se um inseto da boa-vontade e da benevolência mordesse todo aquele que convivesse com a triste história do “menino-iraquiano-vítima-da-guerra” e os obrigasse a algo.

Muita responsabilidade e pouco resultado prático na tela e um sentimentozinho de clichê para o espectador.

A cineasta norte-americana Nina Davenport e o iraquiano Muthama Mohmed
A cineasta norte-americana Nina Davenport e o iraquiano Muthama Mohmed

Mulheres mostram a verdade

O 13º Festival Internacional de Documentários – É Tudo Verdade, que começa hoje em São Paulo traz a agradável surpresa de exibir o maior número de produções feitas por mulheres de todas as suas edições.

Dos 15 concorrentes ao prêmio de Melhor Documentário de Longa e Média-metragem, 8 são produções femininas.

É o caso de Kim Longinotto, que apresenta o seu “Me Abrace Forte e Me Deixe Ir”, relato sobre a Mulberry Bush School, que atende 40 crianças com distúrbios de comportamento. É a sexta participação da inglesa no festival e seu documentário recebeu o prêmio de Melhor Documentário Britânico de 2007.

A mexicana Diana Cardozo (“Sete Intantes”) mostra história de sete mulheres que se tornaram guerilheiras no Uruguai, nos anos 60 e 70, como integrantes das fileiras dos Tupamaros (também conhecidos como Movimento de Libertação Nacional).

As transformações do universo feminino na Itália das décadas de 1960 e 1970 são retratadas em “Também Queremos as Rosas”, de Alina Marazzi.

Masha Novikova dirige “Anna, Sete Anos no Front”, sobre a jornalista russa Anna Politkovskaya, assassinada a tiros em Moscou em 2006 e principal crítica do governo russo nos conflitos com a Chechênia.

Há ainda “Phyllis e Harold”, da norte-americana Cindy Kleine, “Operação Cineasta”, de Nina Davenport, o premiado “Ao Lado”, de Stéphane Mercurio e “O Cosmonauta Polyakov”, da alemã Dana Ranga.


Cena de Me Abrace Forte e Me Deixe Ir

It’s All True!

Começa amanhã em São Paulo o 13º Festival Internacional de Documentários- É Tudo Verdade. Até o dia 06 de abril serão exibidos, entre longas e curtas, cerca de 137 títulos do gênero, em 8 salas de cinema da cidade.

Dentro da Competição Brasileira, concorrem 7 longas e 11 curtas. Destaque para os longas “Simonal – Ninguém Sabe o Duro Que Dei”, de Claudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal e “O Aborto dos Outros”, de Carla Gallo, ambos de 2007.

Já na Competição Internacional, onde concorrem 15 longas e 9 curtas, destaque para “Stranded”, que abre o evento e revive um dramático acidente nos Andes.

Além das Competições, o evento também se divide em outras categorias, como por exemplo, a Mostra Especial (com a temática “Vidas Brasileiras”), Foco Latino-americano e O Estado das Coisas, além das homenagens a Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni, mortos em 2007.

O Festival acontece também nas cidades do Rio de Janeiro, Bauru, Brasília, Recife e Caxias/RS, em datas diferentes.

Você pode conferir a programação completa do É Tudo Verdade em:

http://www.itsalltrue.com.br/2008/programacao/

Ian Curtis, vocalista do Joy Division
O documentário “Joy Division”, de Grant Gee, uma das atrações do Festival.