Sessão de gala a de “O Estranho em Mim”, hoje a tarde no Espaço Unibanco 3. Alguns integrantes do Júri estavam presentes, como é o caso da cineasta iraniana Samira Makhmalbaf e de Jorge Bodansky, além da própria diretora do longa, Emily Atef, que apresentou sua obra e falou ao público presente.
Seu filme é um retrato íntimo sobre a depressão pós-parto. O casal Rebecca e Julian esperam seu primeiro e desejado filho. Após o parto, uma sensação de dor e desespero invade Rebecca. As obrigações de mãe e as cobranças do marido só pioram as coisas.
Rebecca busca ajuda, faz tratamentos e conta com a benevolência e a compreensão de uma sociedade despreparada e ignorante desta doença, tão frequente e tão pouco comentada. Só pela complexidade do tema, já vale o filme, mas ainda é preciso elogiar o trabalho desenvolvido pelo ator Johann von Buelow, que interpreta o pai da criança.
Confesso que ainda não consegui encontrar um adjetivo capaz de sintetizar este filme. Digo apenas que desde já, há dois dias do fim desta edição da Mostra, aposto nele minhas fichas de o melhor filme do evento. É claro que ainda me faltam ver bons filmes, como o do Amos Gitai, sem contar na histeria coletiva acerca de Che. Mas duvido que algum desses supere “A Fronteira da Alvorada” é capaz. No máximo empata!
Digo isso por “n” razões. A primeira é que este é um longa dirigido por Philippe Garrel, um dos maiores diretores da atualidade. Depois, o ator, seu filho, Louis Garrel, também pode ser considerado um dos melhores atores francesesda nova geração. A fotografia – tanto comentada – é assinada por William Lubtchansky, que desenvolveu um belo trabalho em P&B, dando ao filme a cara de clássico. E para arrematar, o roteiro maravilhoso, contando uma história de encontros e desencontros tão bem escrita que faz jus aos filmes da Nouvelle Vague.
Depois de tantos elogios, não há nada a ser dito. Veja… e curta sua felicidade burguesa, mas com estilo, por favor!
O que acontece quando Catherine Deneuvequer ver o resultado de tantas guerras no Líbano? Os cineastas Joana Hadjithomas e Kalil Joreige armam todo um esquema para atender a sua vontade e, de quebra, temos um documentário.
E o que Deneuve tanto queria ver está lá, no sul do Líbano, exposto a quem qualquer um: estradas repletas de minas; entulhos do que um dia foi casas, milhares delas, depositadas na praia; destruição por todos os lados e, se não bastasse esse cenário, ainda tem os aviões israelenses voando baixo, quebrando a barreira do som em ataques simulados.
No fim, a eterna Belle ju Jour, resplandecente em um jantar em sua homenagem, troca olhaes com o ator Rabiah Mroue, seu companheiro e “guia” nessa aventura encenada!
Catherine Deneuve quer ver… Eu quero acreditar!
Avaliação Le Champo: Regular.
A atriz francesa e o ator libanês no documentário mais artificial que já vi…
As flores de cerejeira, ou Sakuras, são símbolos da beleza mas também da impermanência, já que é impossível possuí-las.
Este conceito permeia o belo trabalho de Doris Dörrie. O ponto de partida da história é a descoberta da doença terminal de Rudi por sua esposa. Trudi, de ascendência japonesa, sonha em viajar ao Japão e lá poder avistar o Monte Fuji e as cerejeiras em flor na companhia do marido, sem o qual não veria qualquer graça. Porém, sem contar ao marido sobre seu estado de saúde, ela o convence primeiramente visitar os filhos que moram em Berlim. Como os filhos são ocupados demais para lhes dispensar o mínimo de atenção, o casal resolve viajar até o litoral Báltico. É quando destino prega uma das suas e repentinamente Trudi falece. Começa então a saga do marido em tentar oferecer à esposa morta tudo aquilo que ele a negou em vida, ao passo que ele aprende mais sobre os filhos, sobre o Japão e sobre si mesmo.
Vale a pena pelo roteiro tocante, pela fotografia bem trabalhada e pela trilha sonora, assinada por Claus Bantzer.
Aqui está outro documentário sem sal, exibido na Mostra. Se não bastasse Chevolution, já comentado neste Le Champo, este é outro filme com a cara de programa da History Channel. Ou seria com cara de “Linha Direta”???
Hannah Senesh é um símbolo de resistência anti-semita, tanto em Israel como na Hungria, seu país natal. Além de compor versos, ela dedicou parte da sua adolescência e início da vida adulta num projeto que considerava o maior da sua vida – o trabalho no kibutz, na Palestina. Mas, o que fez desta moça alguém digna de tornar-se tema de documentário foi seu envolvimento no resgate de judeus húngaros, quando da invasão daquele país por tropas alemãs. Saltando de pára-quedas no meio de uma floresta, Hannah Senesh e o grupo de “rebeldes” acabaram sendo acuados e daí todo o resto que já sabemos (prisões, torturas, execução).
Se a história é boa, como de fato é, porque o documentário não funciona? Simples: não basta um bom argumento, é preciso pensar na forma como se vai apresentar a história. O filme é uma mistura irritante de depoimentos de historiadores e conhecidos da poetisa (todos de cara “colada” na câmera) com reconstituições/ simulações da história. Tudo isso coroado com excesso de sentimentalismo, o que coloca em dúvida a interpretação dos fatos.
Dica Le Champo: Saia do cinema a vai ler um livro!
Avaliação Le Champo: Ruim.
Agora me diz: esta reconstituição parece ou não “Linha Direta”?
Em seu mais novo documentário, intitulado “A VIda Moderna”, Raymond Depardon vai muito além de retratar histórias verídicas de pessoas comuns: ele analisa como a introdução de novos valores sócio-culturais se sobrepõem às velhas tradições familiares.
Para ilustrar seu pensamento ele mostra as histórias e as dificuldades encontradas pelos fazendeiros instalados no Sul da França, decorrentes de uma série de fatores. A crise da pecuária e a escassez da agricultura local, aliada ao desinteresse das novas gerações em prosseguir o trabalho iniciado por seus ancestrais faz com que esses fazendeiros, muitos com mais de 60 anos repensem as escolhas feitas no passado.
Baseada na ópera homônima de Giacomo Puccini, La Bohème conta a história de amor entre Mimi e o poeta Colline. A produção austríaca, a cargo de Robert Dornhelm, tenta parecer com 1830, mas na realidade acaba ficando com aquela cara de coisa muito nova querendo parecer antiga…
Se você não for muito, mas muito fã mesmo de ópera e, mais ainda, de versões de óperas para o cinema, nem insista…
Avaliação Le Champo: Regular.
O dramático amor de Colline e Mimi é exporado em “La Bohème”
O que passa pela cabeça dos organizadores da Mostra Internacional de Cinema de programar para o mesmo – e diga-se de passagem, absurdo! – horário as duas únicas sessões do filme que despertou o interesse de pessoas mundo afora?
Atraídos pela curiosidade que filmes neste formato traz, embora já não seja novidade o chamado AnimaDoc – e o sucesso de “Persépolis” (2006) está aí para comprovar isso, uma fila de desesperados cinéfilos se formava na bilheteria do Espaço Unibanco Arteplex, no Shopping Frei Caneca, antes das 11 horas da manhã. O filme seria exibido às 23h30.
23h00 e as filas para entrar nas duas salas onde “Waltz with Bashir” seria exibido já estava formada. Algumas “personalidades” do cinema estavam presentes, entre elas a cineasta Daniela Thomas (de “Linha de Passe”) e Hector Babenco, que zanzava de um lado para o outro.
Começa o filme. A ameaça de briga entre dois mau-educados na sala 1 não compromete a exibição. O que se têm à frente é uma animação de boa qualidade, como se fosse imagens reais, somadas a um roteiro impressionante. Como dito antes, trata-se de uma autobiografia onde Ari Folman conta sua experiência no exército israelense na ocasião da Guerra do Líbano (1980), onde além de combatente, fora testemunha ocular do massacre de palestinos empreendido pelo exército libanês. O Le Champo já havia comentado sobre o “Waltz…” em Cannes, lembra?
Se não lembra, não tem problema, eu separei aqui o trailer, somente para esquentar as discussões sobre sua possível indicação ao Oscar por filme estrangeiro.
Assistindo “Il Divo”, na sexta-feira passada me perguntei se o cinema italiano não sofre um período de crise. Daí assisti “Gomorra” no sábado e descobri que o problema não é com o cinema italiano, mas sim aqueles cineastas que se sentem atraídos em mostrar sob um viés de humor sarcástico detalhes (muitas vezes conhecidos) da história de seu país.
O tal do “Divo” a quem Paolo Sorrentino se refere é o político Giulio Andreotti. À frente do seu 7º mandato como premiê italiano, Andreotti construiu sua vida pública sob bases não muito confiáveis. Apesar disso e contando sempre com “a vontade de Deus”, Andreotti é um tipo quase intocado, beirando o divino. Mas é quando um dos seus alicerces resolve refugar – no caso a máfia italiana – o divino se vê como mais um mortal, prestes a sucumbir.
“Il Divo” não mostra nada daquilo que não seria possível ver ao dar um “google” em seu nome. Nem a atuação de Toni Sorvillo no papel de Andreotti confere muita graça: é caricata e o excesso de sarcasmo do personagem cansa. Um filme de italianos para italianos, o que lhe garante, neste Le Champo, a avaliação de Regular!
Mas já que falamos de máfia italiaa, porque não falarmos de “Gomorra”. O filme de Matteo Garrone. tanto comentado no festivais por onde passou e premiado em Cannes este ano, realmente mostra a que veio. Retratando a organização intitulada “Camorra”, presente nas províncias de Nápoles e Caserta, o filme mergulha de cabeça no obsuro mundo do crime onde não há escolhas nem segundas chances, somente a obediência. Sem o glamour e o charme da “Cosa Nostra” de “O Poderoso Chefão”, em “Gomorra” tudo é excessivo, feio, sujo, implacável.
Valeu a epopéia para chegar ao Shopping Bourbon e a enorme fila, que disputava os últimos 30 ingressos, isso a duas horas e meia antes do início do filme. Sala cheia, público satisfeito, história contada. É disso que vive o bom cinema.
No ano em que o mundo relembra os 40 anos dos eventos de Maio de 68, eis que aparece (mais) um filme evocando o espírito daquela época. Acreditando oferecer uma proposta inovadora (!) – repensar os filhos daquela geração de militância e contestação – “Nascidos em 68″ deixa a desejar num filme longo (são 173 minutos!!!) e novelístico.
Com Laetita Casta no papel de Catherine, a trama vai desde a explosão do movimento estudantil de Paris, em 1968, passando pela construção da utópica comunidade hippie, nos anos 1970 e a sua gradual e inevitável dissolução até os anos 1980. É quando os filhos de Catherine, Ludmilla e Boris são adultos e refazendo o mesmo caminho dos pais, ou seja, o de negação da geração anterior (embora jurem o contrário) se deparam com novos problemas: a queda do Comunismo e com ele o sonho de seus pais, a busca pela realização profissional e a explosão da AIDS.
No fim, a esperança daqueles que vivem de arquitetar boas e saudosas utopias… E então, alguma novidade para você?
Como é que é?!